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sábado, 21 de abril de 2012

Inconfidência Mineira

(...)
Atrás de portas fechadas,
à luz de velas acesas,
uns sugerem, uns recusam,
uns ouvem, uns aconselham.
Se a derrama for lançada,
há levante, com certeza.
Corre-se por essas ruas?
Corta-se alguma cabeça?
Do cimo de alguma escada,
profere-se alguma arenga?
Que bandeira se desdobra?
Com que figura ou legenda?
Coisas da Maçonaria,
do Paganismo ou da Igreja?
A Santíssima Trindade?
Um gênio a quebrar algemas?  
Versos de "O Romanceiro da Inconfidência", de Cecília Meireles.

 Se eu tivesse dez vidas, todas dez vidas eu daria”.
Palavras de Tiradentes momentos antes
do cumprimento da sua sentença. 

 Ilustrações que apresentam Tiradentes como alferes e como réu.

1789, durante o período denominado como "Ciclo do Ouro" no Brasil devido à grande extração do metal precioso, final do século XVIII, a vida administrativa e política do país ainda estavam nas mãos dos colonizadores portugueses, que se lançavam a terríveis abusos que dificultavam ainda mais a emancipação brasileira. 
 Variação da bandeira dos inconfidentes em 1789 (Wikipédia)

O povo em geral protestava contra os abusivos aumentos de impostos cobrados pela Coroa portuguesa, como o "quinto do ouro", que compreendia a 20% do metal extraído em suas colônias, registrados em "certificados de recolhimento" pelas casas de fundição, havendo severas punições, como o deporto para terras hostis africanas, aos sonegadores. Como se não bastasse, a metrópole havia decretado uma série de leis que viraram obstáculos ao desenvolvimento industrial e comercial do Brasil. No ano de 1785, por exemplo, Portugal decretou uma lei que proibia o funcionamento de industrias fabris em território brasileiro.
Visconde de Barbacena. Governador da Capitania das Minas Gerais na época da Inconfidência. Ordenou a devassa dos inconfidentes.
 Original em http://portaldoprofessor.mec.gov.br/fichaTecnicaAula.html?aula=28613.

Instauração da Devassa Ordenada
pelo Visconde de Barbacena (1789)

Autos de Devassa da Inconfidencia Mineira – Vol. 1 – 1936“Officio do Visconde de Barbacena, ordenado a instauração da Inquirição – Devassa da InconfidênciaPor ter chegado á minha noticia, que algumas Pessoas tinhão formado nesta Cappitania o temerário e abominável projecto de huma sublevação contra a Magestade, a legitima Soberania, da Rainha nossa Senhora que Deus guarde, e da sua Real Coroa, conjurandose entre si, pertendendo corromper a fidelidade do Povo e da Tropa, e uzando para o mesmo fim de outros preversos e horrorozos meios: Ordeno ao Dezembargador Ouvidor Geral e Corregedor desta Comarca, que autuadas as Denuncias ou representações, Cartas, e mais Papeis que lhe entrego, haja de proceder com toda a circunspecção e segredo possível á investigação e Inquirição Devassa deste gravíssimo Delicto sem determinado tempo ou numero de Testemunhas, escrevendo nella o Doutor Jozé Caetano Cezar Manitti Ouvidor Geral e Corregedor da Comarca do Sabará, que na conformidade das ordens de Sua Magestade tenho nomeado para Escrivão em todas as dilligencias, procedimentos, e Autos judiciaes concernentes ao exame deste importante negocio; e confio da fidelidade, intelligencia, actividade, e zelo pelo Real serviço, de hum e outro Ministro o completo desempenho delle, procurando conhecer não somente os Autores e cumpleces de tão execranda maldade, mas todo o perniciozo sistema e progresso della, e dandome parte de tudo, para eu occorrer continuadamente com todo o auxilio e providencias que forem necessarias.Villa Rica 12 de Junho de 1789”.Obs: Foi respeitada fielmente a orthographia dos originaes.

Original em: http://www.descubraminas.com.br/MinasGerais/Pagina.aspx?cod_pgi=712

"Prisão de Tiradentes", por Antônio Diogo da Silva Parreiras.

Voltando ao ouro, a prática excessiva da extração fez com que as jazidas diminuissem, porém, tal condição não causava o mesmo efeito na cobrança dos impostos. Foi quando Portugal criou a "derrama do ouro", que exigia de cada região exploradora a transferência anual de 100 arrobas (1500kg) em favor da metrópole. A insuficiência da extração dificultava o cumprimento da meta na maioria das regiões. Portugal mandava soldados entrarem nas casas para buscar pertences das pessoas para completar o valor.
 Óleo sobre tela de Leopoldino de Faria (1836-1911) retratando
a Resposta de Tiradentes à comutação da pena de morte dos Inconfidentes. (Wikipédia)

A população se aborrecia com a audácia portuguesa; fazendeiros e donos de minas reivindicavam participação na vida política do país, além da diminuição dos impostos; e até membros da elite brasileira da época, formada por intelectuais, militares e os já citados fazendeiros e donos de minas, influenciados pelas idéias de liberdade que vinham do Iluminismo europeu, começaram a se reunir às ocultas, em porões das construções de Vila Rica (atual Ouro Preto) para encontrar uma solução para o problema, além de batalhar pela proclamação da Independência do país, o que trataria de ser uma resolução definitiva para a relação de colônia de Portugal que o Brasil se mantinha e que já não se compreendia.

Representação dos inconfidentes Cláudio Manuel, Inácio Alvarenga e Tomás Gonzaga

Vários inconfidentes ficaram conhecidos e há muitas versões para a história de cada um contadas nos livros de histórias da Atualidade. O alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, se tornou um símbolo desse movimento e também um herói nacional. Liderou um grupo formado pelos poetas Tomás Antonio Gonzaga (de Marília de Dirceu e Cartas Chilenas) e Cláudio Manuel da Costa, poeta neoclássico, natural de Vila do Ribeirão do Carmo, Minas Gerais, atual Mariana, também foi advogado de prestígio, o dono de mina Inácio de Alvarenga Peixoto, o padre Rolim (José da Silva e Oliveira Rolim), homem rico e de caráter contestável, filho de um contratador de diamantes da cidade de Diamantina, que procurou carreira eclesiástica para se livrar de processos criminais, conforme alguns ditos históricos (em http://passadicovirtual.blogspot.com.br/2009/03/o-devasso-padre-rolim.html), entre outros representantes da elite mineira. A idéia do grupo era conquistar a liberdade definitiva e implantar o sistema de governo republicano em nosso país (alguns estudos dizem que esta república seria regional apenas), deixando de lado em suas reivindicações a questão da escravidão. A Independência do Brasil só aconteceria em 7 de setembro de 1822, 33 anos depois, devido a vários fatores que se acumularam, entre eles a insurreição dos inconfidentes.

Bandeira da Conjuração Mineira
Os inconfidentes chegaram a marcar o dia da insurreição, que seria em um dia em que a derrama fosse executada, a fim de poderem contar também com o apoio de parte da população revoltada, e a definir uma nova bandeira para o Brasil, composta por um triangulo vermelho em um fundo branco, com a inscrição em latim: "Libertas Quae Sera Tamen" (Liberdade ainda que Tardia).Símbolo que mais tarde se transformaria na bandeira do Estado das Minas Gerais.

Trabalho estudantil que traz informações sobre a Inconfidência Mineira, Tomaz Gonzaga e Marília de Dirceu

Representação de Silvério dos Reis.

Um recibo passado em 1785 por Joaquim Silvério dos Reis,o delator da Inconfidência Mineira.Menciona um dos outros delatores:  Inácio Pamplona.(Documento reproduzido de coleção particular) 
Original em http://buratto.org/gens/gn_documentos5.html
Martírio de Tiradentes,
óleo sobre tela de Francisco Aurélio de Figueiredo e Melo 
(1854 — 1916). (Wikipédia)

O levante foi impedido graças à traição de um dos inconfidentes, convidado de Francisco Antônio de Oliveira Lopes, o português Joaquim Silvério dos Reis Montenegro Leiria Grutes, que era Coronel Comandante do Regimento de Cavalaria Auxiliar de Borda do Campo, contratador de entradas, fazendeiro e proprietário de minas, porém falido, que delatou o movimento para as autoridades portuguesas, em troca do perdão de suas dívidas com a Coroa, ocasionando na prisão de todos eles. No Rio de Janeiro, capital do Brasil na ocasião, eles foram acusados pelo crime de infidelidade ao rei. Alguns inconfidentes ganharam como punição o degredo para a África, enquanto outros apenas penas menores que para alguns pode ser cumprida em meio nobre como a Casa dos Contos de Vila Rica. Somente Tiradentes, por assumir a liderança do movimento (ou por não possuir tanta riqueza, como querem uns), foi condenado a forca em praça pública.

Casa dos Contos de Vila Rica (Ouro Preto - MG)

"Portanto condenam o réu Joaquim José da Silva Xavier, por alcunha o Tiradentes, alferes que foi do Regimento pago da Capitania de Minas, a que, com baraço e pregão seja conduzido pelas ruas públicas ao lugar da forca, e nela morra morte natural para sempre, e que depois de morto lhe seja cortada a cabeça e levada a Vila Rica, onde no lugar mais público dela, será pregada em um poste alto, até que o tempo a consuma, e o seu corpo será dividido em quatro quartos, e pregados em postes, pelo caminho de Minas, no sítio da Varginha e das Cebolas, onde o réu teve as suas infames práticas, e os mais nos sítios das maiores povoações, até que o tempo também os consuma, declaram o réu infame, e seus filhos e netos tendo-os, e os seus bens aplicam para o Fisco e Câmara Real, e a casa em que vivia em Vila Rica será arrasada e salgada, para que nunca mais no chão se edifique, e não sendo própria será avaliada e paga a seu dono pelos bens confiscados, e mesmo chão se levantará um padrão pelo qual se conserve em memória a infâmia deste abominável réu; [...]"
Em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Tiradentes


O quadro "A leitura da sentença de Tiradentes"
 (óleo sobre tela de Leopoldino Faria): 
Portugal utilizava a violência como instrumento repressivo.
original em: 
http://www.brasilescola.com/historiab/inconfidencia-mineira.htm

O episódio da Inconfidência Mineira (também conhecida como Conjuração Mineira) é bastante atacado como a ter sido um fato histórico de grande contribuição para a independência do Brasil dos domínios portugueses. Percebe-se na literatura documentarista muita controvérsia entre os próprios historiadores, dificultando com isto uma possível conclusão dos fatos. Embora tivesse fracassada, foi um dos mais importantes movimentos sociais da História do Brasil. Destacou a luta do povo brasileiro pela liberdade, se opondo à opressão do governo português no Período Colonial.
Tiradentes Esquartejado, em tela de Pedro Américo (1893)
Acervo: Museu Mariano Procópio. (Wikipédia)

FONTES DA PESQUISA DE TEXTO

FONTES DAS IMAGENS: Creditadas no local.

REFERÊNCIAS.
O Romanceiro da Inconfidência. Livro poético de Cecília Meireles. Escrito em 1953.
Tiradentes. O filme de Oswaldo Caldeira, de 1999, trás uma visão mais recente do movimento e sobre a sentença dos conjurados. Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=-fW8Tri3kGc


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A. A. Vítor

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quarta-feira, 21 de março de 2012

Um passeio em Caxambu

O Dr. Emmett Brown fez um ajuste na jardineira e fizemos uma viagem no tempo. Paramos em um terreno montanhoso e rico em águas ferruginosas. Um bom clima de montanha e ainda se ouvia índios cataguases pronunciando Catã-mbu para nos dizer que tais águas borbulhavam.
Uma pane nos circuitos e fomos levados um pouco adiante: a princesa Isabel buscava solução para seu problema de infertilidade: as águas. Desejo cumprido e com ele a construção de uma Igreja, Santa Isabel, em estilo neogótico, em razão do cumprimento de uma promessa. Era o ano de 1868.


A pane nos levou bem adiante. Podemos ver Alberto Curi, um filho da cidade, partindo para o Rio de Janeiro para se tornar um radialista famoso. O irmão dele, Jorge Curi, vai trabalhar nas rádios Tupi, Nacional e Globo, narra Copas do Mundo e apresenta o programa de calouros: A Hora do Pato.

Enquanto que o outro irmão, Ivon Curi, virará cantor e ator da Cinédia e dos primeiros programas de Renato Aragão: "pela peruca do Ivon Curi".

De volta ao futuro, rodamos com a jardineira pelas ruas de Caxambu, apreciando um conjunto arquitetônico, bem paisagístico e muito bonito, que data de 1880.

A cidade dista 382km da Capital mineira e abriga cerca de 21000 caxambuenses.

Dentre seus pontos turísticos, o Parque das Águas, é o maior, mas a cidade ainda oferece bom divertimento e apreensão de cultura em visitas a Igreja Matriz, que data de 1892, e a já citada Igreja de Santa Isabel de Hungria, construída após a visita da princesa e do conde D'eu. Outros locais para se visitar são o horto, há diversas praças, o Centro de Convenções e o famoso Hotel Glória. É recomendado o passeio de teleférico até o Morro de Caxambu.

Hotel Glória
Passeio de teleférico

Do Morro de Caxambu, a 186m acima do Parque e 1090m de altitude. se avista a cidade de Baependi e as serras próximas.Há uma estátua do Redentor, de 15m, que data de 1961, e o Cruzeiro, que é de 1929. São monumentos comuns de se encontrar pelos interiores de Minas, mas nem por isto dispensáveis de se visitar.

 Parque das Águas
Originais em https://olhares.uol.com.br/
O Parque das Águas, patrimônio Histórico e Artístico tombado pelo IEPHA, possui 210.000m2 de área, 12 fontes de águas minerais e um lago. As águas das fontes têm alto poder diurético e desintoxicante, com propriedades químicas diferentes umas das outras, fluem sem cessar. Ferruginosas, foram delas que a princesa foi provar e buscar a cura para a sua infertilidade. As fontes recebem denominações:há a da fertilidade; a da saúde; a da riqueza. Brincadeiras com pedalinhos e barcos alugados nas margens do lago, que é raso em alguns pontos e barrento, são possíveis. O clima da cidade gira em torno de 21º C.

Oriente-se conosco antes de fechar qualquer negócio!


Caxambu faz parte de um programa de turismo em Minas chamado Circuito das Águas, formado por estâncias hidrominerais.Um tipo de turismo recente e entre outras cidades incluem-se: São Lourenço, Baependi e Poços de Caldas.

FOTOS: Originais em https://www.abn.com.br/
POSTAGENS: Originais em https://twitter.com/opinoaberto
PESQUISA: https://www.ferias.tur.br/informacoes/2918/caxambu-mg.html

Dr. Emmett Brown é uma referência ao filme De Volta para o Futuro (Back To The Future. EUA, 1985. Direção de Robert Zemeckis) que se conecta à cidade de Caxambu devido à sua grande vocação de garantir ao visitante uma volta ao passado.

Prefeituras: Interessando antecipar a entrada da sua cidade aqui no Minaspédia, entre em contato conosco através do e-mail olegalzao@gmail.com.
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A. A. Vítor

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quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Bolo de Fubá

Ô, Dona Joana
cadê o bolo de fubá?
Ô, Dona Joana
cadê o bolo de fubá?

Se é por falta de farinha,
diz aí que eu vou buscar.

O galo já cantou,
a coruja foi dormir,
o café já está no bule,
pra roça tenho que ir.

Não importa, seu Arlindo
se já sabem do beabá.
Eu não vou para o batente
sem meu bolo de fubá.

("Bolo de fubá". T-Kaçula e Renato Dias. Samba rural urbano. São Paulo.


A letra da canção esboça bem o cotidiano na roça e a relação do mineiro do interior com o bolo de fubá, embora seja uma gravação oriunda de São Paulo.

Foi difícil encontrar algo idôneo sobre a origem dessa iguaria tão presente nas mesas mineiras da Capital e do interior. O aparecimento e a cultura do milho, da moagem do qual se extrai o fubá, no Brasil são dados à época do Brasil-Colônia quando os tropeiros, em suas viagens, levavam consigo e plantavam as sementes pelos caminhos que enfrentavam ou nos sítios que adquiriam. Sobre o fubá, que é a farinha do milho, diz-se que era usado para alimentar os escravos. O bolo é o aglutinado cozido feito com essa farinha associado a outros ingredientes que vão variar e dar identidade às regiões que se serviram e ajudaram na difusão da iguaria.

Mas o fato é que na culinária mineira, principalmente nos cafés da manhã e da tarde das regiões que guardam mais a tradição ou em ambientes que as simulam nos meios urbanos, o bolo de fubá é indispensável à composição da mesa, à juntar-se ao queijo, à goiabada, à geléia, ao doce-de-leite e ao café à base de rapadura quentinho dentro do bule de lata. Todos produzidos no fogão e forno à lenha, enquanto, muito provavelmente, se aquece água para se banhar na serpentina. Êta banho gostoso!

Mas, voltando à homenagem, o bolo de fubá, talvez pela simplicidade, tem uma relação incompreensível com o mineiro, que até hoje cresce presenciando formas e formas de broas saindo quentinhas do forno, por vezes a substituirem o pão francês, o que o faz ganhar uma entrada nessa enciclopédia.

Receita de bolo de fubá tipicamente mineira (origem: Uberaba)

Ingredientes:


4 ovos
1 copo de fubá
1 copo de farinha de trigo
1 copo de açúcar
1 copo de leite
1 copo de queijo
2 colh. (sopa) de manteiga
1 colh. (sopa) de fermento em pó

Modo de preparo


Bater as claras, misturar o fubá, a farinha de trigo e o fermento. Misturar o leite, o açúcar, a manteiga e as gemas. Novamente, misturar com a mistura do fubá e farinha e adicionar o queijo misturando bem. As claras que sobraram, bata-as em ponto de neve e adicione nesta mistura, envolvendo-a suavemente. Levar ao forno à 220ºC pre-aquecido, por 25 minutos, ou até quando corar. Forma untada com manteiga e farinha.

FONTE DA RECEITA:

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Sua majestade o Tutu à Mineira

 


Ai, ai meu Deus que saudade de um feijão
Com lingüicinha, paio e orelha de leitão

        Feijão assim há muito tempo não se vê
       Pelas panelas da grande população

A enxada magra é o perfil deste sertão
E a poeira, mãe na seca estação
Vertigens claras, obscuras pela história
Sede de vida na faminta solidão

                                O velho feijão tropeiro
                                 Tutu de feijão mineiro
                                 Feijão dos velhos escravos
                                Hoje tão ralo e tão caro

                 Feijão com arroz, meu amigo,
                 Tornou-se um prato vazio
                           Povo cansado e sofrido
                          Canta Feijão de Bandido


"Feijão de Bandido". Banda Feijão de Bandido (Brasília - DF).
Composição: Paulo Córdova 

Seguindo os passos do imperador D. Pedro I, a Estrada Real, desligamos o rádio (Pois deu uma fome!) e resolvemos estacionar o Manuel para comermos um pouco. E, já que nos encontrávamos à caráter, nada melhor do que procurarmos um restaurante especializado em cozinha mineira, daqueles cujo ambiente parece ser todo feito de madeira  de lei, e buscar nos servir de um autêntico tutu de feijão e comer até se fartar.

TUTU DE FEIJÃO


Como a maioria dos pratos conhecidos da culinária de Minas Gerais, o tutu de feijão é mais uma dessas iguarias da região que vem do tempo do tropeirismo, após o momento em que estes não passavam de exploradores de ouro e chegavam a morrer de fome por não dar importância à necessidade de carregar alimento. Atribui-se às paragens dos tropeiros do século XVII, uma espécie de mercador de diversos tipos de mercadoria, entre elas, posteriormente, alimentos, quando estes levantavam suas tendas para descansar e fornir, durante seu  "leva e traz", o surgimento da maioria das receitas que hoje formam a mesa mineira.

Do improviso com que esses mercadores faziam seus pratos, variando raízes, milho e mandioca  com os quais se fazia farinha e fubá  , folhas, toucinho, feijão, temperos  portugueses, indígenas ou africanos, como, por exemplo, a pimenta-do-reino  e café, em panelas apoiadas, para distanciar-se do fogo, ora em uma combinação triangular de pedras colhidas pelo caminho, ora suspensas em um tripé feitos com galhos ou em cupinzeiros abandonados, quando encontravam um, o qual era chamado de tucuruva, à sofisticação atingida ao longo do tempo, as iguarias mantêm sempre uma base, que é o que as identificam. 

O tutu nasce do  feijão tropeiro, comida seca que levava pedaços de carne-de-sol e toucinho além do feijão, sobre os quais se despejava farinha de mandioca, embora haja quem sustente que o original levava a de milho, couve picada e o torresmo usado na obtenção da banha de porco, que era a forma portuguesa usada para fritar ou cozinhar os alimentos, quando não extraíam a gordura da forma herdada dos indígenas, através do bicho-de-taquara, um verme branco que era retirado do interior do bambu já florecido.

Apesar da familiaridade com o feijão tropeiro, o tutu de feijão consagrou-se por ser uma comida pastosa, densidade a que chegou com o passar do tempo. Hoje, dificilmente se vê um tutu, nas casas de Minas, que não leve pedaços de linguiça de porco ou bifes, cebola e cebolinha,  salsa, cheiro verde, alho, molho de tomate e ovo cozido partido ao meio com a gema voltada para cima, a fim de dar melhor apresentação ao prato. Tradicionalmente é cozido em panela de barro ao fogo à lenha e servido em travessas de vidro. Uma caipirinha ou um suco de limão vão muito bem para acompanhar o prato!

 Abaixo apresentamos uma receita. Sirva-se!

Tutu de feijão com couve e torresmo
Rendimento: 10 porções

Ingredientes
1kg de toucinho de barriga para torresmo
Azeite a gosto – mais ou menos uma xícara
1 cebola
2 dentes de alho picados
1kg de feijão já cozido e temperado (batido no liqüidificador)
200g de farinha de milho passada na peneira
Salsinha bem picada
Sal e pimenta moída na hora a gosto

Modo de fazer
1. Com o toucinho faça os torresmos.
2. Numa panela refogue com o azeite a cebola e o alho. Junte o feijão que passou no liquidificador. Agregue a farinha até ficar um creme meio espesso, junte a pimenta e o sal. Por último agregue a salsinha.
3. Passe o tutu para uma travessa, guarneça-o de couve à mineira e torresmo frito. Se desejar, jogue cebolinha picada por cima.
Extraído de: Enciclopédia Larousse da Cozinha Brasileira. Raízes da Nossa Terra. Editora Larousse

Oriente-se conosco antes de fechar qualquer negócio!

Texto: AAVítor (com adaptações)
Foto: http://reidacolher.blogspot.com
Fontes de pesquisa: 
http://comida.ig.com.br/. Colunista: Guta Chaves.
http://www.gastroonline.com.br

Bem, com o estômago forrado, vamos agora procurar uma boa sombra de árvore e tirar uma pestana, para depois continuarmos nossa aventura literária pelas terras de Minas. Após tomarmos um belo banho com água aquecida na serpentina do fogão onde foi feito o maravilhoso tutu de feijão.

Até a próxima postagem!

Não tenho tutu não tenho tutu dinheiro
Mas quero comer tutu e tem que ser tutu mineiro

Não tenho tutu não tenho tutu dinheiro
Mas quero comer tutu e tem que ser tutu mineiro

To andando atrapalhado to andando sem dinheiro
Mas na hora do rangu tem que ser tutu mineiro

Não tenho tutu não tenho tutu dinheiro
Mas quero comer tutu e tem que ser tutu mineiro

"Tutu mineiro". Cascatinha e Inhana (SP).

domingo, 14 de agosto de 2011

Maria Fumaça

Ponta de areia, ponto final
Da Bahia-Minas, estrada natural
Que ligava Minas ao porto ao mar
Caminho de ferro mandaram arrancar
Velho maquinista com seu boné
Lembra o povo alegre que vinha cortejar
Maria fumaça não canta mais
Para moças, flores, janelas e quintais
Na praça vazia, um grito um ai
Casas esquecidas, viúvas nos portais

(Ponta de Areia. Milton Nascimento & Fernando Brant)
É com muita emoção que estacionamos a jardineira, bem rapidinho, para não perdermos o trem que vamos pegar, para preencher de informações e lembranças, com muito requinte, mais uma página da nossa enciclopédia.

1880, findo o trabalho dos operários, está disponível aos usuários de transporte de trilhos situados entre as cidades de Antônio Carlos e Barroso a EFOM: Estrada de Ferro Oeste de Minas. Integrada à histórica Ferrovia Leopoldina, a 13ª da malha ferroviária brasileira, que chegou ao Estado de Minas Gerais, em 1872, partindo da atual cidade de Cataguases.

Vídeo original: Clique!

1881, a articulação da população de São João Del Rey, interessada pelos benefícios da bitolinha, apelido carinhoso que a estrada recebeu, devido a dimensão peculiar de seus dormentes, de aproximadamente 30 polegadas, faz com que sua sede seja implantada na cidade. A estrada recebe a alcunha de "a mais mineira das estradas de ferro" e é considerada a primeira ferrovia do Estado de Minas Gerais, uma vez que as demais que o atinge possuíam, na época, sedes fora de seus limites.

A extensão da estrada chegou a ser de 602 km e serviu ao transporte de passageiros e cargas durante um longo período. Hoje, ela ainda funciona, sendo o trecho que liga São João Del Rey a Tiradentes, ambas cidades históricas, bastante procurado por turistas interessados em viajar em uma locomotiva a vapor americana, do início do século XX, a Maria Fumaça, percorrendo 13 quilômetros, durante meia hora, tendo como panorama o rio das Mortes e a serra de São José, atrás do chamado turismo histórico ou cultural,  e por que não dizer ecológico, que busca resgatar, com prazer e muito glamour, uma época de desenvolvimento não só da malha ferroviária do Estado de Minas Gerais, mas também de diversos aspectos da sociedade brasileira.

O complexo ferroviário de São João Del Rey é considerado um dos pilares que deram origem a ferrovia Centro-Atlântica, uma malha federal que liga estados do Sul ao Nordeste do país. Desde 1989, este complexo é tombado pelo patrimônio histórico nacional.



Texto: AAVítor.
Pesquisa:
Ferrovia Centro Atlântica: Uma ferrovia e suas raízes. em Google Books.
http://www.tiradentes.net/maria.htm
http://www.feriasbrasil.com.br/mg/saojoaodelrei/passeardemariafumacaatetiradentes.cfm
Ouça a música que vem de Minas: "Ponta de areia" na voz de Milton Nascimento:
https://www.youtube.com/watch?v=15g6YWqG3vc

A gente fica por aqui! Vamos passear um pouco de Maria Fumaça e depois curtir bastante a cidade histórica de Tiradentes, que em breve terá seu registro específico aqui no blog!

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Queijo Minas

A jardineira rodou pelo interiorzão procurando por um cadim e também querendo saber tudo sobre...

O Velho e Bom Queijo de Minas


Século XVIII, os portugueses chegam a Minas Gerais em busca do ouro descoberto. Saem a desbravar matas, em suas bandeiras, noite e dia, e, com isto, passam a precisar de um alimento robusto, que durasse o dia todo.À partir de leite fresco, coalhavam queijo, usando de uma técnica que conheciam, adaptada às condições encontradas. Nascia aí uma iguaria.

O pintor Jean-Baptiste Debret, que veio para o Brasil em 1816 realizar quadros para a família real portuguesa, provou do queijo e observou a importância de seu consumo para os brasileiros. Usou a denominação de produto ao referir-se à refeição. Auguste de Saint-Hilaire, um viajante, escreveu toda a receita do queijo naquele início do século XIX. Sua descrição faz menção ao uso do coalho de capivara. Um detalhe que não se usa mais na fabricação atual. Em 1930 acontece a definição da tecnologia empregada na fabricação do queijo minas.

A importância do queijo no dia-a-dia do brasileiro cresceu tanto, que imigrantes europeus resolveram produzí-lo por essas bandas. Em 1888, viera parar na zona da Mantiqueira, trazendo queijeiros da Holanda, um imigrante português, Dr. Carlos Pereira de Sá Fortes. Esta investida resultou na primeira fábrica de queijo holandês no Brasil. No sul de Minas, em 1920, foi a vez de imigrantes dinamarqueses inaugurar no mercado o queijo prato.

A relação do mineiro com o queijo é bem difundida e já gerou um bom número de sátiras. Dizem que o mineiro não sobrevive muito tempo sem o seu "cadim" de queijo. Das muitas piadas tematizadas neste assunto, a mais conhecida é a que o mineiro na roça encontra uma lâmpada de onde sai um gênio após ser esfregada. Ao descobrir que podia fazer três pedidos, o mineiro escolhe um bom pedaço de queijo nos dois primeiros e uma mulher no terceiro, após o qual o mineiro pega seus dois pedaços da iguaria e desce a ladeira, deixando a mulher e justificando que só a teria pedido por ter ficado com vergonha de pedir outro queijo.

Ainda com relação a queijo mineiro podemos falar sobre outros assuntos, que merecem um marcador específico. Um deles as grandes empresas mineiras que criaram oportunidades para si explorando o produto, como a Forno de Minas, que se transformou em uma empresa internacional, produzindo massa para pão de queijo. Há também alguns festivais gastronômicos, festa e salão do queijo, que acontecem em várias cidades do interior do Estado, como por exemplo o Uai Minas, que divulga o queijo do Serro, que foi registrado pelo IEPHA como o primeiro Bem Imaterial de Minas Gerais em 2002 e como Patrimônio Imaterial do Brasil em 2008.

Confira uma receita para fazer queijo minas frescal:

QUEIJO MINAS FRESCAL
   Depositar o leite pasteurizado na panela e aquecer até atingir a temperatura de 36ºC (utilize o termômetro para controlar a temperatura).

   Desligar a chama e fazer a adição dos ingredientes, distribuindo de forma uniforme sobre o leite e mexendo por 30 segundos para cada adição (o coagulante Quimase deve ser sempre o último ingrediente a ser adicionado).

   Após a adição do coagulante, deixar o leite em repouso por um período de 30 a 40 minutos, verificando se ocorreu a formação de uma coalhada lisa, firme e compacta (observe se a mesma começou a se desgrudar da panela; este é um sinal do ponto para se cortar a coalhada). Neste momento o leite apresenta-se na forma de gel, que denominados de "coalhada" ou "coágulo".
Com o auxílio da faca, faça cortes paralelos e cruzados pela extensão da panela, numa distância de uns três centímetros entre um e outro corte.
   Após o corte, deixe em repouso por 5 minutos (observe a formação de um soro com tonalidade esverdeada, isto é um bom sinal de que tudo está correndo bem).
   Após o repouso, inicie a mexedura, com movimentos circulares e lentos, por toda extensão e profundidade da panela. À medida que a massa vai se firmando, mais soro vai sendo expulso de seu interior e a massa vai ficando mais rígida.
O Ponto:

   O ponto do queijo ocorre após 20 a 30 minutos contados a partir do momento do corte (o momento do corte deve ser o tempo inicial para marcar o tempo de fabricação do queijo). Quando a massa esta no ponto, esta fica mais firme e deposita-se com facilidade no fundo da panela, apresenta certa rigidez.
   Se você quiser um queijo mais mole ou firme, basta regular o tempo de mexedura (mexendo mais o queijo fica mais firme e mexendo menos fica mais macio).
A massa deverá então, ser colhida com auxílio da concha e depositada na forma. Observe que quando isto ocorre, o soro flui com certa velocidade pelos furos da forma, ficando somente a massa.
   A altura do queijo é regulada neste momento (importante lembrar que, a massa deverá ainda se acomodar, com a expulsão de mais soro).
   O Queijo Minas Frescal se forma naturalmente, não precisando apertar ou "socar" o queijo!
   Após a enformagem, deixar o Queijo em repouso por 10 minutos e fazer a viragem, passando para uma outra forma, com objetivo de dar acabamento à superficie que não ficou em contato direto com a forma. Importante também é lembrar que a massa esta com certa temperatura e fragilidade, portanto o queijo deve ser manuseado com delicadeza!
A salga do queijo:

   Após a viragem do queijo, adicionar de 5 gramas de sal (uma colher de sopa, rasa) sobre cada superfície distribuindo de forma uniforme. Este tipo de salga é chamada de salga a seco, e o queijo possui uma tendência de absorver o sal lentamente. O sal deve ser refinado e de boa qualidade!
   Após a salga os queijos devem ser levados para geladeira. O consumo pode ser imediato, após terem sido refrigerados. Pessoas que ocasionalmente não queiram ou não possam consumir o sal, podem optar em não salgar o queijo, bastando simplesmente enformá-lo e refrigerá-lo para enfim consumir!
Ingredientes e utensílios: 5 litros de leite pasteurizado (leite tipo "C" ou "B") ou leite direto da fazenda desde que pasteurizado;

3 ml de cloreto de cálcio;

2 ml do Coagulante Quimase (dissolvido em 3 colheres de água filtrada);

1 termômetro para laticínios;

2 formas para queijo Minas Frescal;

Receita caseira para Queijo Minas Frescal.
Dicas importantes: Não utilize leite "homogeneizado" ou leite de "caixinha" (leia no rótulo). Este tipo de leite não serve para fabricar queijos.

   Se utilizar leite direto da fazenda, é necessário efetuar a pasteurização (leia ao final desta receita como pasteurizar em casa o leite para se fabricar o seu queijo). 
GLOSSÁRIO
Coalhar = Talhar, azedar, Fermentar, Coagular.

Pesquisa:
http://www2.uol.com.br/historiaviva/artigos/queijo-de-minas_o_novo_patrimonio_brasileiro.html
http://www.enq.ufsc.br/labs/probio/disc_eng_bioq/trabalhos_grad2004/queijos/tipos.htm
http://www.balkis.com.br/historiadoqueijo.asp
Festa do Queijo

Bem, com a queijeira carregada enfiada na sacola feita de saco de leite junto com uma boa barra de goiabada, vamos seguir viagem!

Inté!